Apresentação
O Renato é pastor presidente na Igreja Batista Nacional Cristo Vive, em Nova Serrana, Minas Gerais. Nesse episódio conversamos com o Renato sobre pequenos grupos pares e mistos.
Batemos um papo sobre características de organização e supervisão de uma igreja com PG's apenas de homens e PG's apenas de mulheres. O Renato nos contou a experiência da IBAN Cristo Vive sobre a migração dessa estrutura para o modelo de PG's e supervisões com homens e mulheres juntos, com co-liderança de casais, compartilhando as dificuldades e desafios, além das ações que fizeram para avançar na mudança.
Resumo
Separar homens e mulheres em pequenos grupos diferentes cria um problema próprio: quando marido e mulher ficam em áreas distintas, qualquer assunto da família vira burocracia. Foi o que levou a Igreja Batista Nacional Cristo Vive, em Nova Serrana, a migrar para grupos mistos com coliderança de casais, conta o pastor presidente Renato Silva nesta entrevista ao célula.in Podcast.
Hoje são 71 grupos. Casal lidera junto, casal supervisiona junto e a área também é conduzida por um casal. Solteiros, jovens e adolescentes seguem separados por homens e mulheres, e quem quiser manter um grupo só de homens ou só de mulheres continua podendo.
A mudança não foi imposta e não foi tranquila: parte da liderança recusou. Ele reconhece que, numa transição anterior, do modelo convencional para o celular, perdeu líderes por falta de preparo próprio.
Antes da segunda transição, diz ter ido buscar eclesiologia, doutrina, teologia e leitura sobre liderança, para decidir com clareza. O ganho que aponta é prático: o que precisa ser resolvido se resolve dentro do próprio grupo, do setor e da área.
Conta para a gente um pouquinho de como você se tornou pastor aí na Cristo Vive, e também como vocês conheceram a visão celular.
A nossa igreja aqui na cidade tem inúmeras congregações. Existe uma igreja mãe, que plantou as chamadas congregações, e essa igreja me enviou para plantar uma congregação em um bairro aqui da cidade de Nova Serrana, que se chama São Sebastião. Desde então nós estamos nesse trabalho, e eu fui obreiro na igreja até 2015, quando veio a minha consagração, a minha ordenação. Nós somos Igreja Batista da convenção nacional, e eu me tornei pastor presidente dessa comunidade específica, sendo que existem outras igrejas batistas na cidade de Nova Serrana.
E a gente conheceu a visão celular no ano de 2011. Quando eu fui para esse bairro da cidade organizar a comunidade local, eu sempre fui incomodado com a membresia, com os membros não sendo conduzidos, não sendo pastoreados. Isso me incomodava muito, e eu buscava uma resposta para esse problema: novos convertidos não sendo acompanhados, e as tarefas todas centralizadas na minha pessoa.
Em 2011 eu li o livro Igreja com Propósitos, e ali o pastor falava justamente sobre as coisas ficarem concentradas em você. E eu era o único pastor dessa comunidade, ainda hoje eu sou o único pastor dessa comunidade local.
E vocês são quantos membros hoje, e quantos eram quando começou esse processo?
Hoje nós temos por volta de 500, e nós estamos buscando melhorar o controle de membresia aqui. Quando nós iniciamos no processo da visão celular, tínhamos uma média de 80 membros.
Em 2011, além do Igreja com Propósitos, veio também o modelo dos 12, que foi muito forte naquela época, ali por 2009, 2010. Em 2011 nós fizemos algumas classes de discipulado dentro do prédio da igreja, mas mesmo assim a gente sabia que aquilo não atendia ao propósito de crescimento, de multiplicação, de evangelizar.
E foi quando eu conheci a Igreja Batista Central de Belo Horizonte, pesquisando na internet. Eles estavam organizando um treinamento e eu fiz uma visita lá, e aí as coisas realmente clarearam muito para mim.
Aquelas classes de discipulado que nós começamos em 2011 ficaram pequenas para o prédio, e a partir de então nós fomos levando essa cultura para dentro das casas. Então em 2011 vieram os primeiros grupos nas casas, e desde então nós estamos vivendo como comunidade: no templo em grande grupo e nas casas em pequenos grupos.
E hoje vocês estão com quantos pequenos grupos?
Hoje nós estamos com 71 pequenos grupos. Nós já chegamos a ter mais, mas tivemos um período de dois anos, aproximadamente, em que os grupos não cresceram tanto. Este ano a gente conseguiu enxergar onde podemos melhorar.
Como era essa estrutura dos pequenos grupos com relação às características demográficas? Havia divisão por faixa etária, grupo de homens, grupo de mulheres, algum par misto? Como era quando vocês começaram e como foi a evolução?
Olha, quando nós começamos, em 2011, e ficou assim por alguns anos, nós iniciamos com grupos de homens e de mulheres separados: no mesmo grupo, ou só tinha homem, ou só tinha mulher.
Com os jovens nós iniciamos no sábado, e ali nós tínhamos rapazes e moças no mesmo encontro. Mas não conseguimos manter esse formato: no início de 2016, quando apareceram os primeiros adolescentes, nós deixávamos os rapazes adolescentes no mesmo encontro que as moças, porém, entendendo que eles estavam um pouquinho tocados por aquelas tensões de namoro, nós colocamos os rapazes adolescentes separados e as moças adolescentes também.
E o jovem adulto ficou junto desde o início.
Aí entra uma transição. A gente percebeu que ter grupo só de homem ou só de mulher começou a não ficar legal no nosso modo de nos organizarmos. As mulheres precisavam da carona do marido e ficavam esperando muito tempo depois do encontro, e isso gerava alguns conflitos familiares. Então a gente começou a fazer uma transição para que homens e mulheres estivessem no mesmo encontro.
Quando você fala de encontro, você está falando das reuniões semanais dos pequenos grupos, correto?
É isso mesmo, as reuniões. A gente percebeu que não daria mais para manter naquele formato, por causa dos inúmeros conflitos que começaram a aparecer no deslocamento e no final da reunião.
Então nós precisamos fazer essa transição, e ela foi bem difícil, porque depois que você tem um modo de organizar já estabelecido, fazer uma transição é complicado. A gente viveu momentos bem cansativos, com gente não aceitando, não concordando. Foi preciso muita conversa com a liderança para conseguir fazer essa transição.
Nós fizemos a transição de uma igreja de modelo convencional para pequenos grupos e, depois, essa mesma igreja teve que fazer de novo uma transição. E toda transição tem os seus desafios, nós vivemos isso, mas conseguimos vencer.
Como eram as supervisões nesse modelo com que vocês iniciaram, se tinha algum problema, e como elas estão agora, nessa relação das supervisões com as células mistas?
A supervisão, sem sombra de dúvida, é uma das colunas de toda a igreja em pequenos grupos.
No começo, quando nós começamos a ter as primeiras multiplicações, nós começamos a colocar pessoas para cuidar dos líderes, porém nós não tínhamos uma noção legal de quantos líderes cada supervisor poderia cuidar. Então chegamos a ter pessoas cuidando de dez, doze líderes, e percebemos que isso não funcionava, porque o supervisor não conseguia estar perto da vida do líder, ele ficava sobrecarregado.
Outra coisa que acontecia no formato antigo e que não funcionava: aquele homem, aquela mulher, ela estava no grupo de mulheres, sob a supervisão de uma outra mulher, e se ela tivesse um conflito conjugal, nós tínhamos que ir atrás do outro supervisor, o do marido, que era de uma outra área. Era preciso fazer toda uma mobilização para ver se a gente conseguia administrar aquele conflito conjugal.
E foi quando a gente conheceu, por indicação da Igreja Batista Central de Belo Horizonte, o célula.in, ali no final de 2015, começo de 2016, com a possibilidade de a gente controlar melhor a frequência.
Aí nós começamos a fazer a tal transição, com homens e mulheres no mesmo grupo, e o supervisor já podia ter a esposa junto dele para cuidar daquele líder, e o líder também tinha a esposa junto. E isso é bom para a gente.
E a gente foi adquirindo conhecimento sobre supervisão, entendendo que o supervisor precisava ter a cultura de acessar o sistema, de saber ler os números. A gente começou a acompanhar alguns indicadores semanalmente, mensalmente: a frequência do grupo, o acesso. Depois foi liberado para a gente uma versão melhor ainda, e nos treinamentos a gente foi mostrando para eles juntos quais eram os indicadores mais importantes, os que ajudariam a monitorar a saúde do grupo e a apontar alguma coisa que eles pudessem fazer.
Então hoje vocês estão com um perfil de supervisão em que existe um supervisor, e abaixo dessa supervisão existem as células, e dentro da mesma célula tem um líder homem ou uma líder mulher. E aí, para administrar os conflitos conjugais, ficou mais simples essa logística de organização?
É isso mesmo. Hoje, o líder adulto casado normalmente tem a sua esposa com ele liderando o grupo, e o supervisor casado tem a sua esposa junto com ele. O coordenador casado tem a sua esposa liderando a área junto com ele. Então é sempre uma coliderança, no caso dos casais.
Já os solteiros, os jovens, ficam separados por homens e mulheres. Por exemplo, no grupo de jovem adulto, o homem tem uma liderança sobre o grupo e a mulher também. E a supervisão do jovem adulto é do mesmo jeito: tem um homem e tem uma mulher.
E a dinâmica da célula, ela acontece tudo junto? Por exemplo, o lanche, o louvor, a ministração, o momento de compartilhar, tudo isso acontece de maneira conjunta entre homens e mulheres, ou em algum momento tem alguma divisão?
A maioria dos nossos grupos faz junto. A gente deixa o líder muito à vontade para tomar essa decisão: se os líderes quiserem deixar os homens compartilhando separados das mulheres, eles têm essa autonomia. Mas a maioria dos homens e das mulheres participa do compartilhar junto, separar é muito pouco.
Tem grupos em que, no momento do compartilhar, eles se separam e depois, no momento da intercessão, se ajuntam novamente, e o momento do lanche também é junto. Então a liderança tem essa autonomia, mas a maioria compartilha com homens e mulheres juntos.
E com relação à supervisão, isso também se aplica, ou tem alguma limitação? Por exemplo, homens não supervisionam mulheres? Como é essa dinâmica?
Quando a esposa não está junto, a gente deixa o supervisor liderando sozinho, mas na maioria dos casos, 98, 99 por cento, a esposa está junto participando ali daquela supervisão, junto com o esposo.
Quando envolve casal, é sempre casal. Não é um homem que vai ficar cuidando de uma mulher casada. E sempre vai ter também uma moça liderando as moças, no caso dos jovens e dos adolescentes.
Houve uma vez em que vocês perceberam, na prática, a necessidade de fazer essa mudança. Mas isso foi bem recebido? Era uma vontade dos líderes também, ou foi mais uma percepção sua como pastor?
Nossa, realmente é uma pergunta muito legal, porque, pensa bem: os homens estarem numa casa, as mulheres estarem em outra casa, e aí vêm os conflitos, os desafios.
Nós precisávamos de uma solução, e uma parte aceitou a proposta, mas teve uma parte que não aceitou de jeito nenhum, porque iniciamos daquele jeito, sempre foi daquele jeito e não queriam mudar de modo algum: os homens numa casa e as mulheres em outra casa.
Então foi o ano de 2016 e concluiu ali no finalzinho de 2017, praticamente. Em 2016 nós colocamos homens e mulheres no mesmo grupo, e esses dois anos foram anos intensos de diálogo. Teve alguns conflitos, teve não aceitação, teve líder falando que não ia mais liderar, e a gente conversando e mostrando os benefícios. Foram dois anos bem intensos de negociação, de explicação, de convencimento.
Você chegou a ter as duas formas coexistindo: os grupos liderados só por homens, com só homens, os liderados só por mulheres, com só mulheres, e também, para quem quisesse, o grupo liderado por homem e mulher?
Sim, hoje nós ainda temos esse modo de organizar. Se um líder, por exemplo, quiser ter uma célula só de homens, ele tem essa célula só de homens.
A gente tem, em algumas áreas, um grupo só de mulheres. Numa área que tem treze grupos, a gente tem um só de mulheres, e ele entra sob o cuidado de algum casal supervisor, onde a mulher vai cuidar dela. E a gente também tem de homem, em que o supervisor casado, o homem, vai cuidar daquele líder homem.
Então a gente ainda tem, a gente entende que pode ser organizado dos dois modos, porém, com a nossa transição, o que prevalece hoje são os grupos de homem e mulher juntos.
Pelo que dá para perceber na sua fala, não foi nada imposto. Qual foi o maior impacto que você percebeu? E o que motivou isso a não ser somente uma imposição, mas a trazer todos os líderes para essa participação em conjunto?
Na nossa primeira experiência de transição, quando foi do modelo convencional para o modelo celular, eu percebi que me faltou sabedoria. Eu acredito que pastores que fizeram essa mudança do convencional para o celular sabem o quanto ela pode desafiar.
Todos aqueles conflitos, eu não soube administrar direito, e acredito que foi pela minha falta de sabedoria naquela primeira transição, em que eu perdi líderes. Foi falta de sabedoria minha mesmo.
Então eu entendi que, nessa nova transição, eu teria que ser mais cuidadoso, que eu precisava manter o domínio, no bom sentido, procurando esclarecer, convencer, mostrar sempre o lado bom, o lado frutífero, os bons resultados que aquelas decisões proporcionariam.
Então eu acredito que foi por isso. Na primeira vez, em 2011, quando eu fiz a transição, faltou sabedoria; e quando eu entrei nessa segunda transição, em 2016, 2017, eu procurei ser um pouco mais paciente, convencer mais. Procurei mais convencer mesmo, encorajar, dialogar, mostrar os benefícios, mostrar como os problemas seriam resolvidos, e passar por esse período de quase dois anos.
De 2016 até o finalzinho de 2017, que você falou que foi o maior período dessa mudança, quais foram os resultados que vocês perceberam? O impacto foi o esperado? Foi uma mudança que valeu a pena?
Valeu a pena muito, porque, primeiro, qualquer tipo de situação que nós precisamos resolver hoje, nós resolvemos dentro do grupo, do setor e da área.
Eu vou dar um exemplo: a mulher casada estava numa área, nós tínhamos uma área que era de mulheres, e o marido estava em outra área, nós tínhamos uma área de homens. Era preciso fazer uma grande mobilização para chamar todo mundo, e realmente aquilo era uma coisa burocrática. E burocracia numa organização é terrível.
Então, com essa transição, hoje tudo se resolve no grupo, ou no setor, ou na área. Por quê? Porque o casal ali se encontra, a família ali se encontra, e o cuidado é feito por uma liderança que também é um casal. Então a facilidade de resolver as situações adversas que aparecem, as situações familiares, melhorou 100 por cento.
Então as expectativas que vocês tinham de problemas a serem solucionados com essa mudança foram atingidas?
Foram. O propósito era resolver um determinado problema, e nós realmente resolvemos esse problema com essa transição.
Teve algum problema que seria um alerta para algum pastor que talvez esteja passando por um momento similar, com essa vontade de fazer a transição? Algo do tipo "fiquem atentos a isso"?
Sim. Nesse tempo, em 2016, 2017, eu percebi que eu precisava de uma eclesiologia mais profunda, precisava me aproximar mais da doutrina da igreja. Então eu me dediquei realmente a isso, porque eu ia passar por uma nova transição, e as transições eram necessárias, mas eu precisava estar mais preparado, precisava ter contato com o norte da igreja, com segurança e clareza. E oração, porque oração realmente funciona.
E eu percebi que uma das coisas de que eu precisaria, como líder da comunidade, era me aprofundar na doutrina da igreja. Segundo, na missão da igreja. A teologia também é outro assunto em que eu tinha que me aprofundar. E liderança, para eu tomar decisões sem medo, de modo confiante.
Eu percebi que o conhecimento que eu tinha da visão celular ainda era muito raso, precisava aprofundar mais. Então esse desafio me levou a aprofundar mais o meu conhecimento nessa área.
Essa seria a nossa grande dica, a experiência que nós podemos passar para todos os líderes: você precisa se aprofundar em teologia, em eclesiologia, em liderança, em organização, para você estar seguro nas decisões que vai tomar. Parecem decisões simples, mas são importantes.
Eu tinha medo: e se essa minha decisão for errada, o que é que vai acontecer com a gente? E a gente fica cheio de medo, "meu Deus, e se eu tomar uma decisão errada?". Isso realmente me levou a uma busca por conhecimento.
E quais são as literaturas que você recomenda, aquelas que foram mais importantes para você nesse processo?
O livro A Segunda Reforma, sobre a reforma da estrutura ministerial, foi o primeiro livro que eu li. Sinais Vitais do Grupo Pequeno também foi importante. O Plano Mestre de Evangelismo também foi muito importante para mim. O Bastão da Liderança, da editora Esperança, e Treinando Obreiros, também da editora Esperança. Unidades Básicas do Corpo de Cristo, do ministério de células, também.
Eu sugiro A Segunda Reforma, esse me ajudou demais, e os antigos também, como O Plano Mestre de Evangelismo. E Liderança Corajosa é outro livro que foi importante para mim a respeito de como está a minha liderança e de como melhorar a liderança, e foi muito importante para eu tomar algumas decisões, quando a gente fica com medo de tomar decisões.